Então apresento ao mundo a parte de mim que venho sem perceber tentando esconder.

Muito prazer sou o reflexo tosco do homem quase bom que fui um dia.
Minto pra mim todos os dias para levantar da cama com algum resto de estima
Pois o que restou de mim são ecos de um eu mais intenso e mais interessante
Que pensava por si só e que vivia a vida pura, destilada no mais puro veneno ou perfume
(tanto fazia conquanto que fosse verdadeira)
Que infelizmente agora é para mim apenas lembrança e contra-senso.
Sinto que hoje sou apenas um resto do “vivi” sem ser capaz de dizer “vivo” ou “viverei”
Muito novo aprendi a viver e voar e sentir e ser sem limites ou pontuação
Mais novo ainda não consegui deixar de morrer.
Mas hoje, sinto dizer:
Muito prazer sou o reflexo tosco do homem quase bom que fui um dia.
As vezes desejo que não tivesse sabido da vida o que soube tão cedo.
As vezes desejo que tivesse vivido e sofrido antes de saber o que isso tudo queria dizer.
Porque agora, sei que nada sei, e nada saberei, e perco o interesse por tudo que possa saber.
Já que pra mim, no fim, poderei no máximo saber muito, sem conseguir de fato viver.
A vida se mostrou um mistério profundo demais,
Sem a resposta do qual não serei capaz de existir.
Portanto,
Muito prazer sou o reflexo tosco do homem quase bom que fui um dia.
A falta de sabor que gozo, e transmuto de sabor para o mundo todos os dias
já cansou. Não me basto na vontade de ser eu mesmo e de satisfazer o que quer que eu seja.
Não sei quem sou, e não caminho na direção de saber.
A falta de mim, causou uma falta de tudo, que suga tudo que tento ser e todos que tento aprazer de tal maneira que jamais serei capaz de ver cores ou prazer, já que sem me definir não saberei amar a mim, e assim não amarei ninguém, e enfiando o amor nesse discurso solto e sem sentido percebo que já me perdi novamente nos labirintos de sentir do meu próprio coração.
Apesar de saber que um dia senti o que deveria ser de verdade.
A época em que apenas senti e vivi e ponto.
Portanto,
Muito prazer sou o reflexo tosco do homem quase bom que fui um dia.
Pena você não ter me conhecido como sou (ou como fui).