5 de fevereiro de 2014

Capítulo 5 – Divina Erosão


A alma, de pedra tem de se fazer areia, e da areia em pó, antes que possa voar com o vento.
E a erosão da alma começa pela dor.
Antes pesados e presos ao solo, pedras não lapidadas que se defendem no orgulho.
Que se escondem no grito, que se fazem de leves, e se pintam de paz.
Mas a verdade é interna, e não podemos fugir de dentro.

Reconhecer nossas falhas é antes um ato de coragem e nobreza, que um sinal de fraqueza.
Pois o pior fraco é o que se pensa e faz de forte.
O peso de nossas dores e erros, nos quebra aos poucos, e é penoso,
mas nos quebrando, nos fazemos mais leves.

Ninguém é tão forte que não possua fraquezas, ninguém é tão fraco que não possua forças.
Somos todos iguais.
Tentamos, mas não nos fazemos diferentes com dinheiro, poder, beleza, conhecimento ou qualquer outra coisa.
Diferenciamo-nos, mas mais pelos outros (que alimentam de forma prazerosa nossos egos) do que por nós mesmos.
Por que no fim, não importa quão belos, quão ricos, quão cultos sejamos, ainda erramos.
Erramos, por que fazemos sofrer, a nós e aos outros.
E assim sem encontrar o fim do sofrimento, queremos sempre mais daquilo que não nos completa. Querendo sempre mais, reiniciamos o ciclo.

Esquecemos que dentro de cada um, existe um silêncio, uma espécie de vazio que não conhece valores, que não pesa, que não compara.
Que só respira, que só existe, que só sente o vento na face, e ponto.
Nesse silêncio quase vazio vive uma paz eterna, que pode ser buscada a qualquer momento, pois também não conhece o tempo.

Uma vez nesse silêncio, a névoa do pensamento se desfaz, o peso se alivia, a dor se ameniza, e a vida parece mais simples de novo.
Podemos então, ponderar nossos atos com mais clareza, mais leveza, e assim lentamente nos tornar mais felizes.
Vivendo a paz, trazendo a paz. Perdoando “nossas ofensas, e a quem nos tenha ofendido”.
Trazendo calma em vez de raiva,
amor em vez de ódio,
compreensão em vez de palavras duras,
e caridade sempre.

E seguimos nos quebrando, desfazendo essa pedra que a vida mundana criou ao redor de nós.
Até que não sejamos nada (pelo menos aos olhos das outras pedras),
Apenas poeira, apenas ‘poeira no vento’.

E o vento, ah, esse sim não conhece limites.
 03/01/2014
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25 de janeiro de 2013

Des norte ar



Os tempos são novos,
A carne já nem tanto.
As dores se acumulam
lado a lado com a alegrias e felicidades de uma vida que que já se aproxima da metade.
Percebo que mudei, que vivi, que sonhei, chorei e sorri.
As vitórias não parecem assim tão vencidas 
quando a vida se aponta a beira do abismo do desconhecido.
A alma sofre a falta de sentido, e se desorienta no medo da perda do por que.

Não sou velho, mas vivi o bastante para aprender quais são os verdadeiros amigos.
Para saber que as dores e os erros vão só se acumular com o passar dos anos.
Que o fogo sempre vira cinza sem o alimento de lenha.
Que os momentos mais esperados, passam rápido e deixam mais nostalgia que felicidade.
O fim de uma época sempre precede o início da nova, 
mas a alma jovem anseia por direções rápidas e certezas instantâneas.

Sofremos do viver, e buscamos um alívio.
Vivemos no caos total de um poema que como esse não tem pé nem cabeça.
A desordem é o padrão, 
e o desejo de organizar a vida é mais facilmente cumprido sem muito pensamento.
Nascemos para sermos felizes, vivemos para conquistar o mundo.
E nos decepcionamos. Sempre. Dominar a vida e ganhar na sociedade são objetivos frívolos.

Há algo em nós maior que isso. Há uma vontade de não sei o que, uma vontade de paz.
De se sentir completo, de juntar as várias partes de nós que se misturam na vivência social,
que tem sempre vários objetivos e usa várias máscaras.
Mas há algo. Uma necessidade de fazer algo que nos trará paz.
Encontrar essa paz é um tarefa hercúlea.
Mas buscar é a chave.

Do que precisamos? Do que você precisa? Do que eu preciso?
Sinto em mim que sou mais, e posso mais do que faço.
De braços dados com tal revelação vem o sentimento de fraqueza, vulnerabilidade e culpa.
A crença bamba de que tudo vai dar certo
às vezes tem que se travestir de cimento, para que possamos continuar.
Continuar não até o topo, talvez até o fundo. O fundo de nós.
E saber que se quisermos ser os melhores, talvez devamos ser os últimos.
E nessa busca incessante por nós, encontrar o ‘que fazer’.

Não sou velho, mas vivi o bastante para ter uma direção do que realmente me faz feliz.
Vivi por tempo demais das promessas de uma vida social normal e bem sucedida.
Nasce em mim a muda já morta de uma necessidade de fazer algo mais. Algo novo.
De dar de volta toda a benção que tive na minha vida, que me fez chegar aonde queria.
Surge em mim novamente o homem que prefere os escárnios sociais 
a uma vida vivida na ilusão de felicidade e baseada no individualismo.
Nasce em mim novamente o homem que acredita que todo homem é mestre de todo homem.
De que a mudança vem antes por palavras tenras e pela mão gentil, 
do que pelo grito de ódio e das ações violentas.

Sei agora mais que nunca, que jamais estarei satisfeito com as vitórias normais do homem comum.
Me recompensa mais saber que ajudei, do que um cheque gordo no fim do mês.
No fim, não sei o que nasce. Não sei o que sou. Não sei quem serei, nem o que devo fazer.

Mas algo renasce.
Algo renasce em mim que nunca deveria ter morrido.
Algo tão nebuloso como a sensação de me dirigir para a paz que busco.

26 de fevereiro de 2012

Tempo

Por quantos anos mais?
Ainda por quantos anos ,
eu manterei todas essas lembranças?
Eu me lembrarei de todos esses momentos?

Por quantos anos mais,
 eu me lembrarei desses momentos que agora me constroem?
Eu demorarei quantos anos para esquecer alguns amigos?
Todos eles vão mesmo permanecer?
Mesmo a favor da minha vontade?

Essas paredes,
Quantas memórias elas guardam agora, que o próximo inquilino ira apagar?
O quanto da minha vida permanecerá em mim daqui a alguns anos?

Eu posso manter algo de mim agora,
ou minha memória irá me trair e apagar cada um dos segundos que me carecem tanto?

Esses sorrisos e choros foram em vão?
São além da ação do tempo?
Meus amores passarão?
Me cansarei de tudo, e quererei vida nova?
Será assim o tempo tão cruel?
Me deixará com tão pouco no fim?
Que filme passará em minha cabeça no fim?
Lembrarei desses momentos?
De que momentos lembrarei?
Lembrarei de algo?
Se esquecer tudo, quem serei eu?

Esses momentos.
São tudo que tenho.
E tudo que sou.
Peço apenas que não me retire os sorrisos sinceros.
Os abraços apertados.
Os choros sem solução (meus e seus, de todos vocês)
As noites divertidas, que não tiveram fim.
Os cafés no meio da tarde que mudaram meu dia.
Os encontros inesperados que tornaram minha vida um pouco menos ridícula.
As conversas até cedo que me fizeram um homem melhor.
Os pequenos momentos em que tive coragem de confessar meu amor.
Os grandes momentos em que tiveram coragem de confessar o amor por mim.
As risadas. As que não pude conter, que mostrei as gengivas e perdi o ar.
Tempo,
não me tire nada disso.

Por que isso, é o que sou,
 e o que amo.

O que fará de mim, ó tempo?

29 de dezembro de 2011

Votos

Em 2012 eu não te desejo nada.
Não te desejo prosperidade, saúde ou amor.
Porque nada disso poderá garantir a você um bom ano.
Porque nada disso pode garantir que você seja feliz.

Então, eu desejo que você tenha coragem para olhar para si.
Que você veja quem você realmente é (inclusive e especialmente para você mesmo).
Depois, desejo que tenha ainda mais coragem para perceber tudo aquilo em você que não te faz bem (ou não o faz a alguém).
E então, desejo a coragem maior de tentar mudar a si.

Só assim, você terá realmente um ano bom, pois será de fato feliz
(independente da situação que qualquer um poderia vir a te desejar).
E naturalmente vai acabar espalhando um pouco dessa felicidade por aí,
Fazendo o mundo um lugar pouco menos frio.

Um ano de lapidação para você (e para mim) é meu desejo!
Sejamos felizes!

Agora se você é muito medroso para olhar para si, então realmente te desejo todo o dinheiro do mundo, uma saúde perfeita, e um(a) companheiro(a) forte.
Porque sem essa coragem primária, você com certeza vai precisar de todo apoio que conseguir.

Feliz ano novo!

19 de novembro de 2011

Aos amores que valem a pena

Algumas pessoas medem a qualidade de seu relacionamento pela intensidade da força da paixão. E isso é importante, é claro.
Outras pessoas medem pela quantidade de afeto recebido. Isso também é importante.
Outras ainda pela qualidade do sexo. Que é indispensável.
Ou até pela possibilidade de planos de vida em comum.

Mas eu, em vez de escolher pelas turbulências que podem facilmente ser encontradas pela vida afora,
prefiro avaliar meus relacionamento pela intensidade da paz que sinto em companhia do alguém.

Porque existem várias qualidades em um relacionamento, vários sentimentos envolvidos, que tem que estar ali.
Mas a paz, de um amor intenso,
é na mesma medida rara, e indescritivelmente prazerosa.
Porque dai, derivam-se o bom sexo, o afeto despretensioso, o entrelaçamento de vidas e até a paixão ardente.

É sempre a melhor escolha.
Dediquem-se apenas aos amores que valem a pena!

18 de outubro de 2011

Aos Amigos

Não sei se sou a pessoa que queria ser quando crescer
Não faço idéia se meu pai terá orgulho de mim
Não tenho como saber se minha mãe dirá que seu filho foi um grande homem
Nem se minhas namoradas diriam que foram felizes.

Não sei se vivi a vida como se fosse a última.
Não sei se fui feliz sempre que pude.
Não sei se aproveitei as oportunidades que a vida me deu.
Nem se ao menos sorri mais que chorei.

Não sei se dei o melhor de mim.
Nem se deixei alguma coisa de bom para alguém.
Não faço idéia se mudei a vida de alguém.
E acho que não consegui mudar o mundo.

Nunca saberei se fui tudo aquilo que meu destino mostraria nas estrelas ou nas runas.
Muito menos saberei se o amor que dei foi maior do que o que recebi,
Ou se fui a mudança que queria ver no mundo.

Mas tenho a profunda certeza da única coisa que mantêm.
Tenho absoluta certeza que tive amigos.
E que se morresse agora, agradeceria e morreria feliz por tido a benção de conhecer
pessoas tão maravilhosas quanto eles.

Se não fui um bom homem,
Sei que me deixaram reclamar e me amaram mesmo assim.

Se não aproveitei minhas oportunidades,
Sei que ofereceram o que tiveram (e eu faria o mesmo).

Se não vivi a vida como se fosse a última,
Tenho certeza que eles fizeram com que essa vida errada fosse a melhor que alguém poderia querer.

Se chorei mais que sorri,
Devo esses raros sorrisos a cada desses grandes homens e mulheres.

Se não mudei o mundo,
Ao menos compartilhei a esperança de um lugar melhor com pessoas que sonhavam como eu.

Se não sou quem eu queria ser quando crescer,
Cresci com quem eu queria, e sei que eles me fizeram crescer muito além do possível.

Não tenho palavras boas o bastante para o fim desse poema.
Tenho só uma imensa quantidade de amor, que sei que recebi de quem não esperava nada em troca.
Mas ainda sonho em devolver ao menos uma poção de todo esse amor que sei que recebi.

Enfim, Amo cada um de vocês.

28 de julho de 2011

Crônica de Saudade e Perda

A Primeira coisa que fiz quando cheguei em casa depois que ela partiu,
foi ir meio sem pensar arrumar a bagunça do quarto
em que estivemos nos último dias.

Sabe, eu não costumo ligar para bagunça,
então percebi que não era por isso que arrumava o quarto.
Fazia meio por que tinha que me prender a alguma coisa,
qualquer uma,
arrumar foi útil, me dava de quebra alguma
ordem lógica a qual me ater.
Havia algum vazio interno que precisava ser preenchido,
dessa vez, com qualquer idiotice concreta.

Não, ela não morreu.
Só viajou, e eu a verei em breve.
Mas o sentimento que eu escondia com a limpeza do quarto,
era a perda.
Como se sentir na perda de alguém que se ama?
Bastou perguntar.


E o vazio me encheu por completo.
Sobrou a máquina irracional arrumadora de quartos.
E a verdade é que na perda,
não se sente, não se pensa, não se fala.
Talvez a dor seja tão grande que o vazio seja mesmo a melhor opção.

É como uma poesia rasgada, a palavra não dita, o brinquedo esquecido,
o veterano do asilo, o último aplauso do último show.

É o vazio que resta no lugar daquilo que nos preenchia e agora se foi.

4 de julho de 2011

Desentalo

A incapacidade de definir como estava na verdade se mostrou pura incapacidade de admitir uma dor profunda demais para ser socialmente agradável.
Então apresento ao mundo a parte de mim que venho sem perceber tentando esconder.



Muito prazer sou o reflexo tosco do homem quase bom que fui um dia.

Minto pra mim todos os dias para levantar da cama com algum resto de estima
Pois o que restou de mim são ecos de um eu mais intenso e mais interessante
Que pensava por si só e que vivia a vida pura,  destilada no mais puro veneno ou perfume
(tanto fazia conquanto que fosse verdadeira)
Que infelizmente agora é para mim apenas lembrança e contra-senso.

Sinto que hoje sou apenas um resto do “vivi” sem ser capaz de dizer “vivo” ou “viverei”

Muito novo aprendi a viver e voar e sentir e ser sem limites ou pontuação
Mais novo ainda não consegui deixar de morrer.

Mas hoje, sinto dizer:
Muito prazer sou o reflexo tosco do homem quase bom que fui um dia.

As vezes desejo que não tivesse sabido da vida o que soube tão cedo.
As vezes desejo que tivesse vivido e sofrido antes de saber o que isso tudo queria dizer.

Porque agora, sei que nada sei, e nada saberei, e perco o interesse por tudo que possa saber.
Já que pra mim, no fim, poderei no máximo saber muito, sem conseguir de fato viver.
A vida se mostrou um mistério profundo demais,
Sem a resposta do qual não serei capaz de existir.

Portanto,
Muito prazer sou o reflexo tosco do homem quase bom que fui um dia.

A falta de sabor que gozo, e transmuto de sabor para o mundo todos os dias
já cansou. Não me basto na vontade de ser eu mesmo e de satisfazer o que quer que eu seja.
Não sei quem sou, e não caminho na direção de saber.
A falta de mim, causou uma falta de tudo, que suga tudo que tento ser e todos que tento aprazer de tal maneira que jamais serei capaz de ver cores ou prazer, já que sem me definir não saberei amar a mim, e assim não amarei ninguém, e enfiando o amor nesse discurso solto e sem sentido percebo que já me perdi novamente nos labirintos de sentir do meu próprio coração.
Apesar de saber que um dia senti o que deveria ser de verdade.
A época em que apenas senti e vivi e ponto.

Portanto,
Muito prazer sou o reflexo tosco do homem quase bom que fui um dia.
Pena você não ter me conhecido como sou (ou como fui).